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Full text of "Liberdade de Docência"

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Liberdade  de  docência 


Entrevista  de  Simon  Schwartzman  a  Rubem  Barros,  editor  da  Revista  Educação,  edição  133 

Segundo  o  ministro  Fernando  Haddad,  um  dos  problemas  da  formação  docente  no  Brasil 
é  que  apenas  15%  dos  professores  vêm  das  universidades  públicas.  A  crítica  ao  ensino 
privado  é  justa? 

De  fato,  grande  parte  da  formação  dos  professores  hoje  se  faz  no  setor  privado,  mas 
não  conheço  evidência  de  que  a  formação  dos  professores  na  universidade  pública  seja 
melhor. 

Nas  áreas  de  física,  química,  biologia  e  matemática,  temos  de  formar  docentes  em 
progressão  geométrica  e  elevar  a  qualidade  dessa  formação.  Qual  a  melhor  estratégia 
para  isso? 

Utilizar  pessoas  que  estão  se  formando  nessas  profissões.  Pode-se  pegar  alunos  de 
medicina  e  pedir  que  dêem  aulas  de  biologia;  de  matemática  ou  de  engenharia  para  dar 
aulas  de  física  e  matemática.  Se  você  deixar  que  os  estudantes  recém-formados  ou  de 
pós-graduação  dêem  aulas  como  parte  de  seu  processo  de  formação,  pode  ser 
interessante.  Essa  turma  é  muito  boa  e  ganharia,  assim,  um  dinheiro  adicional.  Como 
são  jovens,  devem  ter  boa  relação  com  os  alunos.  Dificilmente  hoje  alguém  resolve  ser 
professor  de  2-  grau  de  física  como  projeto  de  vida.  Se  gostar  de  física,  fará  uma  pós- 
graduação  e  será  pesquisador.  É  muito  difícil  atrair  alguém  para  uma  carreira  de 
ensino  médio. 

Isso  seria  uma  saída  de  curto  prazo? 

É  preciso  abrir  a  profissão  docente,  ter  pessoas  com  outros  tipos  de  formação  que 
também  ensinem.  Não  se  pode  pensar  que  o  professor  tem  de  ser  sempre  formado  em 
educação  ou  pedagogia.  É  claro  que  é  diferente  o  professor  especializado  em  educação 
infantil.  Mas  nessas  áreas  em  que  há  conteúdo,  de  ciências  sociais  ou  naturais,  de 
matemática,  tem  de  abrir,  de  buscar  pessoas  de  todos  os  campos  que  possam  ser 
capacitadas  para  a  sala  de  aula. 

Essa  estratégia  é  mais  adequada  que  a  de  valorizar  a  carreira  do  professor? 

Tem  de  misturar  as  duas  coisas.  A  valorização  da  carreira  do  professor  é  um  problema 
mais  acentuado  na  educação  inicial,  em  que  o  professor  é  o  professor  de  classe,  em  que 
o  lado  da  pedagogia  é  muito  importante,  a  técnica  da  alfabetização  etc.  Nos  níveis  mais 
avançados,  como  no  ensino  médio,  a  carreira  deve  ser  aberta. 

Qual  sistema  poderia  servir  de  modelo  para  essa  experiência? 

Os  EUA  têm  um  sistema  bastante  amplo  de  licenciatura  para  pessoas  que  não  fazem  a 
carreira  docente.  As  pessoas  podem  ser  capacitadas  seja  pela  carreira  docente,  seja  por 
outra  em  que  depois  fazem  um  curso  ou  uma  certificação.  Há  maneiras  de  fazer  isso 
rapidamente. 

0  problema  não  está  no  pouco  foco  que  as  licenciaturas  dão  às  questões  pedagógicas 
hoje? 

Não.  Uma  pessoa  que  entende  bem  de  física  possivelmente  será  um  bom  professor.  0 
problema  dela  é  se  não  entende  bem  de  física,  se  não  está  interessada  naquela  matéria. 
Se  é  um  bom  aluno,  você  dá  a  ele  um  bom  material  didático  e  faz  um  treinamento,  em 
seis  meses  será  um  excelente  professor. 

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O  que  acha  de  federalizar  a  formação? 

O  governo  federal  tem  um  papel  de  ajudar  a  definir  padrões  de  qualidade  do  professor. 
Isso  se  faz  por  sistema  de  certificação,  sistema  de  discussão  e  melhora  do  currículo 
mínimo.  Não  vejo  no  governo  federal  a  capacidade  gerencial  e  administrativa  para 
fazer  isso.  O  próprio  sistema  de  ensino  superior  público  é  pequeno  comparado  à 
necessidade  do  país. 

Eo  uso  da  educação  à  distância  na  formação  de  professores? 

A  formação  de  professores  tem  várias  etapas.  Há  uma  de  conhecimento,  que  é 
indiferente  se  for  a  distância,  presencial  ou  semipresencial.  O  que  tem  de  haver  é  um 
bom  sistema  de  certificação  para  verificar  se  o  aluno  de  fato  aprendeu.  Mas  há  outra 
parte  da  formação,  a  indução,  que  é  a  colocação  desse  professor  em  sala  de  aula.  Isso 
tem  de  ser  sob  orientação  e  acompanhamento.  Nisso  o  Brasil  falha.  Não  temos  nem 
para  o  professor  que  se  forma  na  faculdade.  Ele  não  aprende  como  mexer  com  sala  de 
aula  e  é  jogado  lá. 

E  quem  faria  essa  certificação? 

Poderiam  ser  os  Estados.  0  sistema  de  Educação  Básica  é  descentralizado.  0  governo 
federal  pode  fazer  convénios  com  os  Estados,  induzir,  mas,  em  última  análise,  os 
Estados  são  independentes,  têm  autonomia  para  isso. 

Recente  avaliação  dos  professores  chilenos  revelou  um  baixo  índice  de  docentes 
considerados  de  excelência.  0  que  isso  nos  indica? 

Só  recentemente  o  Chile  começou  a  avaliar  os  professores.  Até  o  governo  Pinochet,  os 
professores  eram  funcionários  públicos  federais.  Pinochet  forçou  uma 
descentralização,  e  viraram  funcionários  municipais.  Houve  uma  perda  grande  de 
salários,  além  do  clima  de  repressão  política,  que  gerou  uma  situação  muito  ruim. 
Depois,  os  governos  da  Concertación  [coalizão  que  assumiu  o  governo  pós-ditadura] 
começaram  a  aumentar  os  salários,  dar  melhores  condições  de  trabalho,  a  recuperar 
esse  tipo  de  coisa.  Mas  é  a  primeira  vez  que  o  governo  olha  de  fato  o  que  os  professores 
sabem  e  aprendem.  Nesse  sentido,  a  situação  não  é  muito  diferente  da  nossa.  As 
faculdades  de  educação,  de  pedagogia,  estão  distantes  da  necessidade  prática  da  sala 
de  aula,  é  uma  coisa  muito  teórica,  não  há  uma  formação  específica.  E  há  um  problema 
que  afeta  todos  os  países,  que  é  o  baixo  prestígio  da  profissão  e  os  baixos  salários,  o 
que  tornou  a  carreira  uma  escolha  para  quem  não  consegue  fazer  outra  coisa. 

0  PDE  está  no  caminho  certo? 

0  Plano  é  um  ponto  de  partida  ainda  modesto.  0  governo  Lula,  nos  quatro  primeiros 
anos,  não  sabia  o  que  fazer  com  a  educação.  Fez  uma  série  de  programas  que  não 
tinham  nada  a  ver  com  as  questões  fundamentais.  No  segundo  mandato,  com  o 
ministro  Haddad,  já  começa  a  apontar  os  problemas  da  qualidade,  do  mau  desempenho 
da  escola  básica,  problemas  correios.  Desenvolve  esse  Ideb,  que  é  importante  para 
saber  o  que  está  acontecendo,  vai  dar  recursos  para  apoiar  as  escolas  em  piores 
condições,  ou  seja,  a  preocupação  está  no  sentido  correto.  Mas  não  sei  como  está  sendo 
feito  do  ponto  de  vista  de  transformar  essas  preocupações  em  ações  efetivas.  De  todo 
jeito,  é  uma  coisa  lenta.  E  não  é  o  governo  federal  que  vai  resolver.  Os  acertos  são 
estaduais  e  municipais. 

0  ensino  médio  tem  despontado  como  o  maior  problema  da  educação  neste  momento.  0 
MEC  propõe  ampliar  as  vagas  das  escolas  técnicas  e  assumir  10%  das  matrículas  do 
ensino  médio.  A  direção  é  boa? 


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As  escolas  federais  de  ensino  técnico  ficaram  tão  boas  que  viraram  escolas  de  classe 
média  alta  para  os  meninos  se  prepararem  para  o  vestibular.  Hoje  em  dia  todas  estão 
fazendo  pós-graduação,  mestrado,  curso  superior  etc.  Os  Cefets  estão  virando 
universidades.  Do  ponto  de  vista  da  formação  técnica,  a  idéia  de  uma  formação  de  nível 
médio  para  o  mercado  de  trabalho  não  está  dando  certo. 

Por  quê? 

Essa  discussão  do  ensino  técnico  é  complicada.  A  idéia  antiga,  que  os  europeus 
adotaram  e  o  Brasil  tentou  imitar  [no  século  20],  é  que  uma  certa  elite  se  prepara  para 
a  universidade  e  a  massa  vai  fazer  curso  técnico  para  ser  operária.  Essa  é  a  concepção 
alemã,  francesa,  inglesa,  ideias  de  1920.  Isso  hoje  na  Europa  está  em  crise,  porque  o 
setor  industrial  ficou  pequeno  e  o  emprego  industrial  depende  de  leitura, 
conhecimento  de  língua,  computação.  A  formação  técnica  manual  do  operário 
especializado,  dos  anos  50-60,  está  sumindo.  Então,  que  formação  técnica  é  essa?  Você 
pode  fazer  isso  num  certo  nicho.  Por  exemplo,  em  São  Paulo  existe  o  Centro  Paula 
Souza,  um  sistema  que  faz  isso,  no  nível  médio  e  um  pouco  no  superior,  naqueles 
cursos  de  dois  anos.  Faz  formação  para  indústrias,  parcerias.  Mas  são  200  mil  pessoas, 
se  tanto,  num  Estado  como  São  Paulo.  Não  dá  para  crescer  muito  esse  ensino. 

O  que  fazer  então? 

A  educação  média  tem  de  ser  uma  educação  para  a  pessoa  terminar  lendo  e  escrevendo 
bem,  sabendo  usar  a  matemática.  Daí  pode  fazer  um  curso  especializado,  mais 
avançado.  No  mundo  todo,  a  tendência  é  criar  escolas  que  sejam  múltiplas.  Os 
americanos  fazem  isso,  os  alemães  estão  começando  a  fazer.  O  aluno  entra  e,  conforme 
o  interesse  e  a  capacidade  dele,  vai  fazer  um  curso  mais  ou  menos  prático,  mais  ou 
menos  aprofundado.  E  conforme  o  que  fizer  naquele  meio,  vai  para  uma  universidade 
ou  para  um  curso  profissional  de  curto  prazo.  É  mais  diversificado. 

O  problema  do  nosso  ensino  médio  está  mais  centrado  no  currículo? 

Há  vários  problemas.  O  primeiro  é  que  os  alunos  chegam  muito  mal.  A  porcentagem  de 
alunos  que  terminam  os  oito  anos  do  fundamental  sem  saber  ler  com  fluência  é  de  50% 
para  cima.  Depois,  há  um  problema  de  infraestrutura:  a  maior  parte  do  ensino  médio 
público  é  à  noite,  não  há  escolas.  Usam  as  escolas  que  são  do  fundamental  durante  o 
dia.  E  o  que  é  curso  médio  à  noite  para  adolescentes?  Começa  às  19h30  e  termina  às 
2  lh.  Existe  o  problema  do  professor.  O  conteúdo  é  antigo,  ultrapassado  e  há  essa 
tendência  maluca  brasileira  de  obrigar  a  aprender  qualquer  coisa  no  ensino  médio.  Há 
sociologia,  filosofia,  trânsito,  qualquer  coisa  que  alguém  ache  importante  colocar  como 
obrigatório  no  ensino  médio. 

Filosofia  não  é  útil  no  ensino  médio? 

Não.  Uma  escola  pode  até  ensinar  filosofia  como  opção,  mas  obrigar  todo  mundo  a 
aprender  filosofia...  Tem  de  aprender  matemática  e  português,  as  ciências  básicas  e 
entender  como  é  o  país  em  que  vive.  O  resto  é  adicional  e  depende  do  interesse  do 
aluno,  da  capacidade  da  escola.  A  Lei  de  Diretrizes  e  Bases  é  inteligente,  abre  essa 
possibilidade,  cria  algo  bastante  aberto,  mas  há  uma  tendência  de  exigir. 

As  políticas  na  área  de  educação  estão  se  tornando  de  longo  prazo? 

Uma  coisa  que  está  se  consolidando  aos  poucos  é  que  o  entendimento  de  que  a 
educação  não  pode  ser  uma  política  de  governo,  tem  de  ser  uma  política  de  Estado.  É  o 
caso  do  Chile,  que  quebrou  a  cabeça,  fez  muita  bobagem,  mas  de  1990  até  hoje  há 
continuidade.  O  mesmo  tipo  de  coalizão  política  se  mantém  há  quase  20  anos.  Isso 
permite  aprender.  É  preciso  experimentar,  tentar,  avaliar,  é  um  processo  de 


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aprendizagem.  Também  começa  a  haver  um  envolvimento  maior  da  sociedade  com  a 
educação.  0  governo  não  pode  colocar  no  Ministério  um  político  que  não  seja  ligado  ao 
assunto.  Há  uma  comunidade  grande  que  diz  que  não  pode,  que  deve  ser  alguém  da 
área.  É  uma  tendência  que  mostra  que  o  tema  está  sendo  levado  mais  seriamente  pela 
sociedade  e  pelos  governos. 


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